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Críticas, Noutras Salas 1

Magnificent Obsession (1954) de Douglas Sirk

De Carlota Gonçalves · Em Abril 16, 2017

Magnificent Obsession (Sublime Expiação, 1954) pertence bem ao universo de Douglas Sirk, cheio de cor e tragédia, de melô e drama, admiravelmente marcado com o estilo pelo qual o realizador ficou tão conhecido: o melodrama. O gosto por este género pode ser logo detectado em filmes que já anunciavam na época alemã – o realizador nasceu em Hamburgo com nome de Hans Detlef Sierck, de origens dinamarquesas – um espírito aguçado para a mise en scène, desenhado para o trágico e o romanesco. A lembrar The Girl from the Marsh Croft (1935), um drama onde amplifica o papel de uma heroína romântica grávida e rejeitada. Um filme pleno de magia noir, sentimento e desejo. Dentro da linhagem dramática de Griffith, Stroheim ou Borzage, Sirk irá empreender a sua própria démarche e dar brilho e cor a um estilo que forjará o seu cinema, num ambiente estético e narrativo sedutor, capaz de medir os encantos e desencantos de uma América do pós-guerra. Sirk tem a seu favor uma grande cultura, com formação em direito, filosofia e história de arte, ficou conhecido nos Estados Unidos, para onde emigrou, como um dos cineastas mais cultos de Hollywood e um grande responsável por fazer adaptações de romances, muitas das vezes de fraca qualidade, para o cinema, elevando-os excepcionalmente.

All I Desire (Desejo de Mulher, 1953) é considerado o primeiro melodrama americano de Sirk, com a arrebatadora Barbara Stanwyck num papel de mulher adúltera que regressa à família, após anos de ausência. Inquietante e intensa Stanwyck, uma verdadeira máquina de emoções, e aqui tudo se prende a ela num cruel cenário inquisitório na província.

 

 

Chegar a Magnificent Obsession é abrir as portas de par em par ao melodrama pleno de si, que virá a refinar-se nos próximos filmes de Sirk encontrando no género um caminho cada vez mais seguro, que lhe dará o título justíssimo de mestre do melodrama. Magnificent Obsession é também uma adaptação do romance de Lloyd C. Douglas, que contou com uma primeira versão, em 1935, de John M. Stahl, com Irene Dunne e Robert Taylor.

 

 

Sirk gostava de títulos, segundo o realizador: “O título de um filme é como o prólogo de um drama. Shakespeare era muito bom para dar títulos e eu preocupo-me muito com os títulos dos meus filmes. Os títulos são como sinais à frente dos filmes ou deveriam sê-lo: uma coisa passageira, intermediária, não o drama propriamente dito. (…)” (Rodrigues, 2002). Daí ficarem irremediavelmente a soar os sugestivos (e bem melodramáticos), títulos dos seus filmes: All I Desire, All That Heaven Allows (O Que o Céu Permite, 1955), Written on the Wind (Escrito no Vento, 1956), A time to love and a time to die (Tempo para Amar e Tempo para Morrer, 1958), The Tarnished Angels (O meu maior pecado, 1958), Imitation of life (Imitação da vida, 1959), etc.

Com o título, Magnificent Obsession, estamos face ao drama de um milionário intrépido e playboy, primeiro, e por apenas alguns minutos, para depois ficarmos com um homem preso à culpa e pronto à redenção, à enunciada expiação, através de um périplo devoto, plenamente convicto e passional. A figura que encarna esta personagem é o grande Rock Hudson, em início de carreira. Por outro lado, temos a heroína do drama, mulher casada com um médico de renome, por pouco tempo, e viúva logo de seguida, e depois cega (dos olhos, mesmo), e apaixonada. No papel temos a actriz Jane Wyman, com um Óscar ganho em Johnny Belinda, (Belinda, Escrava do Silêncio, 1948), de Jean Negulesco. Sirk reúne-se de uma equipa perfeita que o irá acompanhar nos seus próximos filmes produzidos pela Universal. O director de fotografia Russel Metty é um exemplo, e também o compositor Frank Skinner, para além do actor Rock Hudson, que virá a assumir inúmeros papéis de protagonista.

Costumam ser vistos os exageros narrativos e a enfatização dramática em Magnificent Obsession, mais conhecido pelo filme da ‘’ceguinha’’, mas continua a ser uma obra marcante, hábil na fabricação da sua lógica interna, e muito capaz de responder, num tom próprio e magnífico, ao cliché. Depois de entrar no filme ficamos dentro dessa lógica, apanhados pela eficácia estética e pela representação física, que se mexe tão bem nos planos, e agarra todo o conteúdo e o sustenta.

Sirk teve ainda na Alemanha uma farta experiência teatral e foi até pelo sucesso das suas encenações que deu o salto para o cinema, mantendo sempre o sentido crítico e o cuidado na pesquisa de novos métodos de representação cinematográficos. Daí podermos sentir que há qualquer coisa de ‘’teatral’’ na aproximação que faz às personagens tão bem encarnadas que se tornam figuras trágicas, enredadas num debate de valores, e projectando-se inteiras na situação.

Magnificent Obsession lança-se logo, desde as primeiras imagens, na vertigem da velocidade de uma lancha no lago, conduzida por Merrick (Hudson), o rapaz que vive a vida a muitos à hora, e é apanhado pelo revés da sorte. O acidente do milionário vai provocar a necessidade de assistência e privar outra igual necessidade, vitimando fatalmente o marido de Helen Phillips, o doutor Phillips. Enquanto isto, paralelamente, Helen vive feliz no interior do carro em conversa animada com a enteada dirigindo-se à mansão. Este acontecimento leva para a frente a narrativa, sem nunca mais a fazer parar, com a força do drama capaz de tudo. Aí está, é essa força que anima o filme no seu vibrante technicolor, enquanto a desgraça se espalha e vai exercendo o seu poder de contaminação.

 

 

O que a imagem vai mostrando é o tal mundo organizado, burguês, saturado de cor, onde a dor é elegante e contrasta com os males que se sucedem, sem nunca perder o brio. Depressa se descobrem segredos do falecido doutor humanista que vêm compor o quadro das pulsões altruístas e criar laços determinantes na história. Há ainda uma pronunciada filosofia místico-religiosa que alimenta o filme e acompanha as transformações de Merrick, com a mão do divino por perto, transferida simbolicamente para o amigo do doutor, Edward Randolph, um anjo da guarda. Uma cadeia de acasos põe-se em marcha e vai provocando os encontros entre Helen e Merrick, Helen e Randolph, Merrick e Randolph. A filosofia da prática do bem tem a imagem de um candeeiro que todos podemos iluminar (na versão de John Stahl é um fogão que serve de analogia), exemplo que Randolph dá a Merrick, à imagem de uma “central eléctrica” com a qual podemos estabelecer contacto.

 

 

E como um mal nunca vem só rapidamente irrompe outra desgraça sem dó nem piedade. Helen é vítima de um desastre quando em fuga do insistente Merrick, que entretanto accionou a sua prática do bem, aproveitando o acaso de um encontro fortuito para não largar a viúva. Ela é apanhada brutalmente no acidente que a deixará cega. A roda do destino é implacável e não pára. Vai ser agora preciso superar esta dura prova que coloca a protagonista no centro do infortúnio. As idas de Helen ao lago, a cumplicidade que cria com Judy, a menina-rapaz, criam um perfeito cenário, belo microcosmos, para que o paciente Merrick estabeleça uma nova proximidade, sob identidade falsa. Outro pretexto da máquina sirkiana que se mecaniza para que nada desencaixe da sofisticação do estratagema. Sirk enquadra toda este mundo com mão elegante e firme, compondo uma mise en scène irrepreensível, onde se alia a obscuridade da desgraça a um “maneirismo convulsivo” (Sadoul, 1981).

Segundo o realizador, o melodrama vive da intensidade emocional que reside no seu movimento interno: “o melodrama deve produzir sobretudo emoções e não acções. Mas a emoção é uma espécie de acção; é uma acção no interior de uma pessoa” (Rodrigues, 2002). Tudo é elaborado num estado de graça que vive dessa entrega intensa, animada por dentro para se ver por fora, para extrair o melhor e mais sumarento pathos.

 

 

Apesar de Sirk ter tido um reconhecimento tardio como autor, só em meados dos anos 60 é que se começou a prestar a devida atenção à qualidade do seu cinema, não escapou à admiração de Fassbinder e depois de Almodóvar, Todd Haynes, François Ozon, entre outros.

O realizador faz ainda um laborioso trabalho com as personagens na família que ampara a protagonista, como a fiel enfermeira, Nancy, com a magnífica actriz Agnes Moorehead, impecável na sua incólume presença.

 

 

Flores, lilases, muita cor, muitas janelas, persianas, reflexos e espelhos, luares, muita música (a fazer subir o gráfico dramático, às vezes com uns graus a mais) juntam-se como elevados suportes estéticos que animam os quadros da imagem, num equilíbrio imaginário, onde os corpos se movimentam com fulgor. A concepção dramática é subtil por fora e densa por dentro, em Sirk os ‘’sentimentos aceleram-se’’ (Veillon, 1985), exactamente para apoiar a insustentável intensidade das situações. O excesso emerge mas faz parte integrante de uma narrativa que não quer nada do naturalismo. Assim Merrick pode irromper no escuro como figura do desejo de Helen – “vindo do sonho ou do desejo” (JM Torres, in, Rodrigues, 2002) – e pode surgir uma vila Suíça e levá-los pela noite fora, pô-los nos braços um do outro, fazê-los dançar.

 

 

Depois ela pode fugir, desaparecer, os códigos do género, ou melhor, os códigos de Sirk não vão deixar as coisas desenlaçadas. Vai ser preciso unir alguns pontos, acelerar a narrativa, colocar o par romântico de novo frente a frente. Vai haver mais dor e tragédia, para que Sirk desenhe um fim com uma Helen moribunda e um Merrick neurocirurgião-salvador.

 

 

Uma coisa liga-se à outra, e mais outra, e tudo flui num universo technicolor que trata das coisas à sua maneira, quer dizer, uma maneira que se desenvolve para um fim. Que se produz com a clareza das intenções do drama e uma força passional dada pela imagem vibrante, e pela entrega e movimento dos corpos. Isto tudo num lugar onde existe em pleno a força da paixão, do amor-paixão, da paixão da imagem, onde o glamour dos sentimentos e da imagem estão no topo. A entrega dos protagonistas é tocante com um garboso Hudson a dar resposta a tudo isto e a impecável Wyman, também, com os seus óculos soberbos, imagem de marca que fica. Até ao final com encontros e fugas há lugar para a tal magnífica obsessão, para por à prova a filosofia do bem, e permitir um happy end com uma dimensão estranha e delirante na réplica de Helen, que também fica: “may I get excited tomorrow?” Emoções ao rubro, fecha-se um filme que continua a ser sublime pela força das imagens, garridas e tensas, e pela forma como tudo corre neste mundo sirkiano, subtil mas não brando, intocável e intenso.

 

Bibliografia:

Rodrigues, Antonio, org. literária, (2002), Douglas Sirk, Cinemateca Portuguesa Museu do Chiado, Lisboa

Sadoul, Georges, (1965) Dictionnaires Cinéastes, Ed. du Seuil, Paris

Veillon, Olivier-René, (1985) Dicionário de Cinema Americano dos anos 50, Publicações Dom Quixote, Lisboa.

 

Magnificent Obsession é exibido no próximo dia 18 de Abril às 21h00 no Cineclube de Joane.

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Carlota Gonçalves

"I seem to remember you from one of my dreams. One of the better ones." – Murder, My Sweet (1944) de Edward Dmytryk

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  • Mário Jorge Torres: revisitando um pensamento vibrante | À pala de Walsh diz: Junho 9, 2019 em 2:36 pm

    […] O pretexto deste artigo está muito bem identificado e tem uma morada: a Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema. Entre os dias 24 e 28 de Junho, Mário Jorge Torres visita a “casa-mãe do cinema” para falar de um dos seus assuntos de eleição: o melodrama. No âmbito da rubrica Histórias do Cinema, o crítico, professor universitário e devoto cinéfilo programou um ciclo, baptizado de “O Melodrama do Trágico ao Operático”, que tem tudo menos escolhas óbvias. Obras algo obscuras de Luchino Visconti, Max Ophuls, John M. Stahl e Frank Borzage compõem o banquete. A abrir, um clássico mais célebre: Magnificent Obsession (Sublime Expiação, 1954) de um dos mestres maiores do género, Douglas Sirk – a walshiana Carlota Gonçalves oferece a sua leitura do filme aqui. […]

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